terça-feira, 9 de outubro de 2007

E A MOÇA ERA DIFERENTE...





Quando em 1950, estava eu há 5 anos, à espera de me ver curado dum doença grave, no Caramulo, e já no fim destes anos, estava a fazer de locutor na Radio Polo Norte e a certa altura, recebi uma carta muito amável, duma garota de Viseu, que se dizia muito admiradora dos meus programas e da minha voz.


Assim começou uma certa correspondência, até porque ela tinha muita pena de mim, ali abandonado há tantos anos, sem saber se morreria ou viveria...


Mas um dia, eu me mostrei muito interessado em conhecê-la pessoalmente, para o que me preparei para dar um salto a Viseu e ir à sua procura, mas ela logo me informou que não pensasse nisso, porque o seu pai era uma pessoa irascível e se me visse por lá a rondar, até era capaz de me mandar um tiro...


Mesmo assim, resolvi pegar a minha carabina de tiro ao alvo...e ali vou eu, olhando à esquerda e direita, como se estivesse à procura de casa... à procura da casa que me disseram ser aquela que ficava no meio duma propriedade e ali vou eu, com todo o cuidado, sempre pela berma do terreno, para não pizar o lavrado, quando vejo junto da casa, um tipo com as mãos à cintura, olhar seco e altivo, e nitidamente à minha espera... Era ele, o pai da garota !


Quando me aproximei mais, pedi-lhe desculpa da intromissão, mas como estava ali a passear, lembrei-me de ir ali pedir um copinho de água, mas ele mudou logo de fisionomia e até me convidou logo a entrar e ir provar um copo especial do seu vinho, que tinha na adega.

E eu a pensar; " Já estou nas minhas 7 quintas..."


Mal eu me aproximei e o cumprimentei, logo ele gritou para alguém da família, para me trazerem um cálice e me aparece uma senhora com mais uns 25 anos do que eu e acompanhada de duas garotas, talvez com mais uns 5 anos do que eu, onde eu logo descobri a que estava interessado em conhecer pessoalmente, mas era ela era bem diferente do que eu pensava...para pior... e se mostrava muito preocupada com a minha presença, não fosse o pai desconfiar...


Mas não. O pai logo encheu o grande cálice e mo entregou e eu que nada percebia de vinhos, ali fiquei com ele a rolar entre os dedos e a levá-lo ao nariz, até que enfiei um golo e, realmente, aquilo era mesmo bom, para quem estava cheio de calor, naquele quente dia de verão.


A dona da casa logo se apressou a chegar um prato de bolos e as duas garotas muito envergonhadas, ali estavam sem saber o que dizer...e eu a fugir de dar com os olhos nelas, para que o pai não desconfiasse.


E assim foi passando o tempo, em que eu lhes disse que estava ali no Caramulo, à espera da cura da minha doença, que felizmente, tudo indicava que estava já em bom estado e, depois até falámos de música que eu gostava e lá me levaram para a sala, onde puseram a rodar um velho gira discos de agulha e discos a 78 r.p.m. onde pude ouvir várias músicas de Bing Crosby, cantor que gostava muito de ouvir, e elas também.


Depois acabou-se o tempo e vim-me embora para o sanatório, preparar as coisas para deixar a Estância Sanatorial e dirigir-me para Lisboa, onde tinha a família à minha espera.


Mas uns dias depois de estar em casa, aparece-me a mãe das garotas de Viseu, dizendo-me que tinha abandonado o marido e as filhas, para vir viver comigo....


Aquilo é que estava ali uma açorda ! A velha devia estar doida, pela certa !


Mas como eu não avançava, até mesmo muito envergonhado, em frente à senhora com uma data de anos a mais do que eu...ela começou a amaciar-me as mãos, toda dengosa, e cheia de sorrisos, até que eu não pude aguentar mais e fui ao telefone para falar com a filha, a qual se mostrou muito comprometida e aflita, porque andava toda a gente à procura dela...


Também, não havia ela de se sentir tão feliz, ali ao pé daquele rapazinho...

Dado o alarme, passadas poucas horas, me batem à porta e vejo entrar a filha e dois abestalhados enfermeiros vestidos de branco, que se atiram à pobre senhora e logo lhe vestem um colete de forças, rebocando-a para a ambulância, embora ela protestasse com "não me deixes eles levarem-me...Mário "... e eu ali feito parvo, sem nada poder fazer pela pobre senhora...

A vida prega-nos cada partida...




2 comentários:

denisy disse...

Olá
Por acaso encontrei esse bloge e andei lendo , gostei dos textos são interessantes .

Unknown disse...

Que fria, hem? :-))
Yolanda